Os Mortos

“os mortos vêem o mundo
pelos olhos dos vivos

eventualmente ouvem,
com nossos ouvidos,
certas sinfonias
algum bater de portas,
ventanias

Ausentes
de corpo e alma
misturam o seu ao nosso riso
se de fato
quando vivos
acharam a mesma graça”

– Ferreira Gullar

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Charles Bukowski

“se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.

e nunca houve.”

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Eu Tenho Um Amor Que Me Ama

Eu tenho um amor que me ama
e eu o amo como o ar em que respiro.
Sim baby, hoje eu tenho um homem que me ama.
Ele me vê e lhe sinto de longe,
até posso ver o que se passa em sua mente.
Eu tenho um amor como as nuvens tem o céu,
como o azul claro dele reflete em meus olhos escuro.
Eu tenho um amor de verão intenso.
Veio até mim e foi caloroso como o arder do sol.
Eu tenho um homem que me ama
assim como ama os solos de guitarra.
Eu o deixo me abraçar e sinto o pesar da vida
preenchendo nossos corpos juntos.
O peso da vida em cima do nosso amor caloroso.
E quando a manhã chega
o nascer do sol ilumina nossos rostos e podemos ver.
Podemos ver o nascer de mais um dia
o nascer dos nossos dias.
E cada vez que vejo de perto
seus olhos escuros como os meus
é como ver o nascer de uma vida.
Meu amor de verão veio intensamente me chamar
para esfriar o arder da dor de dentro.
E hoje o calor intenso que sinto é o do seu amor por mim.
Flavia M. (Vomite-me)

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Segundas Eram Espaçosas

Segundas eram espaçosas.
Parecia que o tempo não passava lá fora.
Da janela viu o céu mudando as cores e formatos
com o passar dos minutos.
A cada amanhecer amanhecia em mim o céu de lá de fora.
Queria viver mas não do jeito que se viviam.
Talvez até me acostuma-se com a ideia mundana,
mas como qualquer poeta não querer-ia.
Escrevia e mais tarde perdia a inspiração.
É uma crise de nadas.
Não sentia a querer se inspirar.
Os textos já saiam enferrujados.
As palavras lentas,
e as segundas doíam no coração do mundo.
As crises domingueira passavam como flashes em minha mente.
A vida seria somente isso na alma de quem não se inspira.
E o desânimo pairando no ar
como se fosse o frio do inverno chuvoso.
Uma preguiça nasce no interior ,
talvez até um aconchego de ficar somente submersa em si mesma.
Vendo a noite anoitecer como se fosse poesia.
– Flavia M. (Vomite-me)

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