Reciprocidade: o compromisso delicioso de um para com outro

Reciprocidade: o compromisso delicioso de um para com outro

O casal gozou pela quarta vez cada um em um espaço de tempo de três horas. Ao contrário dos romances mais ilusórios, onde se escuta falar de um gozo simultâneo por parte dos participantes – uma farsa que nunca acontece –, eles gozaram separadamente de tempos em tempos.

 

Devido ao compromisso assumido para com o próximo, quando um deles atingia o auge dos prazeres não era a cama e o descanso que buscava. Pelo contrário. Mal saboreavam suas próprias delícias e lá estavam novamente mergulhados entre um par de pernas.

 

Quando a mulher gozava primeiro, ela mal se recuperava e logo se posicionava no chão de joelhos. Neste momento, o homem vinha ao seu encontro, enchia sua boca e assim ficava até gozar.

 

Mas não pense, amigo leitor, que nosso homem é um ser indecoroso. Quando a situação se invertia, ele deitava e enfiava a cara no meio das pernas da mulher com a disposição de um vassalo. Dois de seus dedos abriam a muralha de pele permitindo que a língua estimulasse o clitóris com movimentos circulares. Um centímetro abaixo, outros dois de seus dedos invadiam a fenda da mulher e subiam até seu ponto G: eis aqui um arranjo infalível, mas que apenas parte dos homens consegue propor com a devida graça. Nesta formação, a mulher não resistia cinco minutos sem que gozasse aos berros.

 

E por isso, devido à tamanho empenho por ambas as partes, o momento se estendeu por tanto tempo. O período em que se empenhavam para ajudar o próximo a chegar ao auge bastava para que novas chamas de volúpia se acendessem em seus espíritos. Era este o ciclo mais saboroso do mundo.

 

Após todo esse tempo, permitiram-se enfim uma espécie de descanso. Eles deitaram na cama lado a lado, mas evitaram qualquer troca de palavras ou olhares; pois sabiam: qualquer tipo de contato bastaria para que novos estímulos nascessem.

 

Sentindo o coração transbordar das venturas e delícias daquela noite, com o espírito tranquilo e a carne satisfeita, o homem começou a ruminar a sua felicidade feito quem saboreia depois do jantar o gosto das iguarias que acabara de digerir. O seu olhar era tranquilo, definitivamente tranquilo. Ele fitava o teto do seu quarto numa tentativa frustrada de compreender como aquela mulher o atiçava tanto, como podia deixá-lo tão disposto e como ousava derramar sobre sua vida ânimos e expectativas tão vulgares além daquelas relacionadas à volúpia; como deve imaginar, amigo leitor, ele não soube responder nenhum de seus questionamentos; soube apenas que naquela manhã sentia-se bem em relação a quase tudo em sua vida.

 

Passado um quarto de hora, um breve e ligeiro encontro dos olhos bastou para que uma força secreta os atraísse novamente. Desta vez, não houve nenhuma preliminar além de beijos e arranhões pelo corpo. Quando o homem beijava o pescoço da mulher e se preparava para descer, ele foi censurado no mesmo instante pelos desejos dela, que naquele momento falavam mais alto.

 

“Não” reclamou a mulher. “Me come.”

 

Ela não precisou falar de novo. Deitada de bruços, oferecendo á escolha do homem as suas vastas ofertas, a mulher fechou os olhos, mordeu os lábios e ao puxão de seus cabelos sentiu-se prazerosamente presa por uma rédea divina. Saqueando suas nádegas, o homem empurrou gradativamente, apartando as bandas com uma das mãos, até penetrá-la com dificuldade e o pelo do membro acariciar os rebordos do orifício, observando que era necessário tornar aquela passagem mais cômoda.

 

E assim fez o homem. Ele adotou movimentos repetitivos, entrando e saindo, no intuito de alargar a via. Ele iniciou em marcha lenta, depois gradativamente o fez mais veloz, até que minutos mais tarde já agia de forma feroz, como se aquela passagem fosse a via tradicional na qual a mulher estava tão acostumada.

 

Do ponto de vista da mulher, ela não sabia ao certo o que a instigava mais: o cabelo sendo puxado de forma majestosa, os tapas e arranhões que recebia ou ainda a dor aguda, mas prazerosa, que sentia no cu. Por fim, ela concluiu que era a reunião de tudo aquilo que a deixava em êxtase.

 

Adotando novas modalidades, a dupla organizou-se de forma que possibilitava aos seres um estímulo recíproco: o homem se deitou na cama e viu a mulher jogar sobre seu rosto o quadril descoberto, o que possibilitou a ele o contato com ambas as fendas.

 

Pouco abaixo, ela brincava com as bolas, beijava a virilha, arranhava as coxas e fazia o membro do homem desaparecer em sua boca.

 

Em busca de controle para não gozar de pronto, o homem regozijou-se três ou quatro vezes, contraindo os dedos dos pés e fechando os olhos no intuito de pensar em outra coisa. Não adiantou, mas pelo menos ele conseguiu se conter.

 

Após novos estímulos, onde a mulher foi contemplada com beijos gregos e augustos movimentos circulares com os dedos, eles se reorganizaram em uma posição clássica.

 

Abrindo suas pernas após deitar na cama, a mulher trouxe o homem para perto em um só gesto, que bastou para o encaixe de seus órgãos e apreciação de seus sorrisos, visto que a posição proporcionava um contato próximo dos rostos.

 

E assim eles permaneceram por longos minutos. Ao passo que variava entre a fenda principal e o cu, o homem beijava o pescoço da dama, acariciava seus seios, chupava suas orelhas, puxava seus cabelos; as ações simultâneas e dignas de notável coordenação proporcionavam a mulher um prazer imensurável. Ela queria gritar, dizer ao mundo que iria morrer, mas se conteve, incapaz de pronúncias claras além dos gemidos trêmulos que emanava.

 

Dois quartos de hora depois a mulher tremeu com um novo orgasmo múltiplo. Era o quinto em um espaço de tempo de quatro horas. Desta vez, por fim, suas forças se esvaíram. Ela não tinha mais energias para chupá-lo. E o homem, ao invés de ficar descontente, sorriu vitorioso como se aquele momento simbolizasse para ele uma conquista ainda maior.

 

A seguir, eles deitaram em lados opostos e novamente evitaram o confronto dos olhos, como se sentissem vergonha. Horas mais tarde, após dormirem um pouco, a mulher despertou com o ronco incômodo do rapaz e viu que era hora de ir embora.

 

Antes disso eles tomaram um banho juntos, transaram no box, gozaram cada um mais uma vez e por fim saíram às ruas desafiando o mundo com seus sorrisos óbvios.

 

Naquele dia, poderiam perder o emprego ou o familiar mais próximo; nada disso mudaria o sabor daquela data. Sem grandes dúvidas, determinaram ambos aquele como um dos dias mais saborosos de suas vidas.